Archive for the ‘Opinião’ Category

Cyberutopias e jornalismo

March 27, 2008

Artigo interessante de Eugênio Bucci para o Jornal O Estado de São Paulo de 27 de março de 2008:

O relatório The State of the News Media de 2008 (www.stateofthenewsmedia.org), divulgado este mês, traz uma radiografia, quer dizer, uma tomografia computadorizada do estado da imprensa nos Estados Unidos. Conduzido pelo Project for Excellence in Journalism, é vasto, quase exaustivo. Se publicado em livro, teria mais de 700 páginas. Ao mesmo tempo, é detalhista e analítico. O diretor do Project for Excellence in Journalism, Tom Rosenstiel, é a pessoa certa no lugar certo, como demonstra um dos livros que escreveu em parceria com Bill Kovach, The Elements of Journalism (New York: Three Rivers Press, lançado em 2001 e atualizado em 2007). A partir de centenas de conversas com profissionais e estudiosos da imprensa, essa obra procura identificar e definir os elementos essenciais do jornalismo em tempos de transformação. O relatório The State of the News Media, publicado anualmente desde 2004, parece perseguir a mesma pergunta e o mesmo método.

Em 2008, o estudo noticiou com destaque o incremento da liderança das redações convencionais no ambiente da internet:
“Em que pese a existência de novas fontes, as pessoas consomem mais as notícias que as redações da velha mídia produzem.”

O cenário é interessante. Os dez sites noticiosos de maior audiência, em sua maioria extensões de marcas já consagradas na televisão ou na chamada “imprensa escrita” – como CNN, com 29,1 milhões de visitantes únicos por mês em2007, ou The New York Times, com 14,7 milhões –, exercem praticamente uma “oligarquia”, nos termos do relatório, dentro da rede. No jornalismo online, a concentração de audiência é
ainda maior do que a verificada na mídia convencional. Os dez maiores sites respondem por 29% do total, enquanto os dez maiores jornais impressos representam apenas 19% do mercado.

Essa concentração segue em crescimento, contrariando as previsões de que o aumento exponencial do número de portais, blogs e sites estilhaçaria o domínio de marcas tradicionais. Chama a atenção o avanço do New York Times, cuja audiência (em visitantes únicos por mês) deu um salto da ordem de 20% entre 2006 e 2007.

Diante desses dados, o que dizer das profecias que garantiam que a indústria e o mercado perderiam centralidade? Estavam todas furadas? Bem, ao menos em parte, estavam furadas, sim. É verdade que os cenários continuam indefinidos. A transição em que nos encontramos tende a perdurar e não se deve esperar que as coisas se imobilizem. De agora em diante, ao contrário, é bem possível que a idéia de transição vireum componente da idéia de estabilidade, ou seja, o sujeito – bem como as instituições – será cada vez mais desafiado a se localizar, a encontrar um equilíbrio mais ou menos estável, num mundo em movimento permanentemente, arranjado segundo configurações mutáveis e mutantes. Surpresas virão por aí. Ainda assim, é possível concluir com alguma segurança que os grandes títulos, a despeito dos vaticínios, não morrerão tão cedo.

Os dados recentes mostram que não há incompatibilidade entre os jornais tradicionais e as “novas mídias”. Há contradições, muitas vezes, mas não incompatibilidades. Apesar de esse debate ter enveredado por discursos utópicos e melodramáticos, em que os blogs ficam com o papel de mocinhos e tudo o que seja cconvencional representa o vilão, os fatos indicam uma complementaridade entre uns e outros. Um dos mais inteligentes estudiosos das redes interconectadas, Yochai Benkler, autor de TheWealth of Networks –  How Social Production Transforms Markets and Freedom (Yale University Press, 2006), descreve de modo desapaixonado o processo pelo qual as novas tecnologias habilitam indivíduos e pequenos grupos a se
converterem em, como dizem, “provedores de conteúdo”, baseados em relações de trabalho voluntárias e solidárias, não mediadas pelo mercado. Nascem daí fenômenos como a Wikipedia, um sucesso na web que contou com colaboração voluntária de, segundo Benkler, 50 mil co-autores. Ocorre que essas redes, se não se subordinam ao mercado, tampouco revogam o mercado: elas o modificam – para melhor. Elas o civilizam.

O mesmo se pode dizer com relação ao jornalismo. Por mais voluntariosas que sejam, as redes de voluntários não o revogam, mas podem ajudar a melhorá-lo. A demanda por notícias e análises confiáveis e independentes, em ambientes de debate que abriguem grandes contingentes de cidadãos, permanece acesa e viva. A necessidade de fóruns amplos e comuns é estrutural. O espaço público não pode prescindir de referenciais de alta visibilidade e fluxos intensos, que façam as vezes de nós de entroncamento do trânsito das idéias. É aí que entram as velhas redações jornalísticas, não porque são velhas, mas porque são jornalísticas. Num mundo em que o cidadão, finalmente, aprendeu a desconfiar da arrogância do (mau) jjornalismo, as redações são chamadas a vincular credibilidade e inovação. Mais ainda, precisam demonstrar capacidade de liderar num ambiente em que a participação do público – muitas vezes como autor, mais que como consumidor das notícias – é a regra. Não por acaso, segundo apontou o The State of the News Media, um dos destaques do ano de 2007 é justamente o ambiente de alta inovação das redações
americanas.

Inovar quer dizer inovar tecnologicamente e eticamente. E inovar eticamente quer dizer reencontrar, em novas bases, princípios aparentemente antigos, como independência e respeito ao cidadão – respeito que inclui diálogo horizontal. Para isso apenas a imprensa livre – pública ou comercial, não importa, mas livre de verdade – é capaz de dar respostas adequadas. As redações, velhas ou novas, inovam quando reinventam a função pública do jornalismo. Parece uma trama complicada, mas alguns já conseguiram. ●

Os Melhores Jornais do Mundo

March 8, 2008

Gostaria de recomendar aos senhores aqui presentes neste moribundo blog o livro “Os Melhores Jornais do Mundo – uma Visão da Imprensa Internacional” do jornalista Matías M. Molina. Estou lendo e estou gostando. Arrisco-me a dizer que todo aspirante à jornalista e os já profissionais deveriam ler esse livro. Matías M. Molina pra quem não sabe, é praticamente o guru do jornalismo econômico brasileiro. Ele simplesmente É.

Sinopse:

O livro “Os Melhores Jornais do Mundo – Uma visão da Imprensa Internacional” conta essas histórias de sucesso. Ele foi escrito por um dos mais respeitados jornalistas da área econômica, Matías M. Molina, espanhol radicado no Brasil. Molina influenciou gerações de novos profissionais, que hoje representam a elite da comunicação sobre mercado e finanças. A obra surgiu de uma série de reportagens especiais publicadas pelo autor no jornal Valor Econômico em 2005 e 2006.

imagemdll.jpg

Os jornais analisados são verdadeiras instituições, com décadas de existência nas quais conquistaram a credibilidade e a admiração dos leitores – e diante dos quais os governos dos países mais avançados e democráticos têm que prestar contas de suas decisões.
A obra começa com os jornais franceses, com sua grande tradição em coberturas e reportagens profundas que influenciam o jogo da política internacional: o Le Monde e o Le Figaro. Seguem os norte-americanos: o de maior repercussão mundial, The New York Times; e o conterrâneo econômico The Wall Street Journal. Há ainda nesse capítulo o veículo da capital do país mais poderoso do mundo, The Washingnton Post, e o jovem e vibrante Los Angeles Times.

Da Espanha, o representante é o El País, decisivo na redemocratização após o longo período franquista. No entanto, a nação onde a leitura dos jornais foi desde seu início um hábito popular é a Inglaterra, de onde são o Financial Times, o The Guardian e o The Times.
O italiano Corriere della Sera, relativamente mais novo, conquistou um lugar importante na imprensa da União Européia, que também é dividida com os periódicos da Alemanha Frankfurter Allgemeine Zeitung e Süddeutsche Zeitung.

Suíça, com sua longa tradição em abordar as principais questões políticas da Europa a partir do princípio da neutralidade, oferece o Neue Zürcher Zeitung. No Canadá, o mais influente jornal, analisado no livro, é o The Globe and Mail.

Finalmente, Molina descreve dois jornais japoneses, aos quais naturalmente o público brasileiro tem pouco acesso, mas que fazem parte desse rol das grandes publicações: Asahi Simbun e Nihon Keizai Shimbun.

Nessa obra não estão os diários do Brasil e da América Latina. Mas, para quem sentiu falta, fica a expectativa: o autor tem o projeto de fazer um novo volume abordando o continente.

Mais sobre o livro:

Introdução disponível no site da Editora Globo, clique aqui (em formato .pdf, requer Adobe Reader).

Vamos proibir tudo

January 18, 2008

Leia o trecho abaixo:

Desde a última quinta-feira (17), “EverQuest” e “Counter-Strike” começaram a ser apreendidos em Goiás pelo Procon - a decisão, contudo, se estende por todo território nacional -, por serem “considerados impróprios para o consumo, na medida em que são nocivos à saúde dos consumidores, em ofensa ao disposto nos artigos 6, I, 8, 10 e 39, IV, todos do Código de Proteção e Defesa do Consumidor“. A decisão foi proferida pelo Juízo da 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais e publicada no site oficial do Procon/GO.*

Concordo que tais jogos citados realmente podem ser nocivos a saúde a partir de determinado grau de uso. Mas será que só isso deve ser proibido?

E nas novelas, onde em uma delas a atriz Flávia Alessandra dança nua (seminua é o caralho… falar que ela tava seminua é o mesmo que dizer que aquele pessoal que corre pelado em Wimbledon estavam semi-nus porque estavam de relógio e tênis) em volta de um pole? E o tal cidadão interpretado por Antonio Fagundes que segundo minha mãe é o dono da favela, traficante e endeusado pelos moradores?

Ambos os casos são apologias corretas? Pornografia pra qualquer menor ver e deificação de bandidos? Está certo isso?

Pra não citar o glorioso BBB que dispensa qualquer crítica de um ser que tenha um cérebro na caixa craniana, tamanha a obviedade do ridículo.

Eu não jogo Counter-Strike há mais de quatro anos, nunca vi esse Everquest na minha vida, atualmente tenho pouca paciência pra jogo, mas de uma coisa tenho certeza:

Se esses jogos merecem proibição, tudo a nossa volta também merece ser proibido.

- Vamos proibir venda de bebidas alcoólicas em postos de gasolina (uma clara apologia à associação álcool+direção) e formar um raio de 1km de proibição em volta de cada posto.

- Vamos proibir todas as novelas. Quem tem criança em casa e não tem TV a cabo, tem que arranjar outra recreação pro seu rebento. A não ser que os pais achem normal um filho de 8 anos ver degradação e pornografia diariamente na Televisão. (vamos ser honestos, a maioria das crianças de noite param pra ver TV antes de dormir… é o cúmulo oferecer BBB e novela pra uma criança ver)

- Vamos proibir as bebidas alcoólicas em si! Visto que (vou colar da própria notícia) “por serem ‘considerados impróprios para o consumo, na medida em que são nocivos à saúde dos consumidores, em ofensa ao disposto nos artigos 6, I, 8, 10 e 39, IV, todos do Código de Proteção e Defesa do Consumidor’“. Quantas famílias já não foram destruídas pelo alcoolismo? Só eu conheço duas. E vocês? Inclusive visitem o blog do prof. Denis que tem um post interessantíssimo acerca do assunto “drogas e destruição familiar”.

Eu poderia ficar o dia inteiro aqui citando o que é bem mais nocivo à nossa sociedade do que um simples jogo que eu não preciso nem conhecer pra defender, porquê o próprio nome já diz: “jogo”. Faça-me o favor essas autoridades, vão cuidar de coisas mais importantes. Façam algo novo ao invés de ficar proibindo o que já existe.

* notícia na íntegra: http://jogos.uol.com.br/pc/ultnot/2008/01/18/ult182u7954.jhtm

Um ano de 365 dias

December 20, 2007

É estranho pensar como somos robotizados pela própria história. Recentemente discuti com alguns amigos sobre como marcamos o tempo em nossas vidas.

Os 365 dias do ano, são na verdade, um ciclo definido pelo homem para controle. Mas como controlar nossas vidas em 365 dias? Faço aniversário todo ano, e cada vez mais sinto-me preso aos dias.

Algumas pessoas trabalham a semana toda pensando no final de semana, ou seja, sábado e domingo de descanso e lazer. Mas será que a vida deve ser prazerosa apenas nestes dois dias? 

O dia tem 24 horas (não acredito), e foi definido que o dia é dia e a noite é noite, durante o dia eu trabalho e a noite eu durmo. Essa lógica é maldita. 

Daí nasce a questão do quanto dormir. Alguns afirmam que, no mínimo, temos que dormir 8 horas por dia, ou será por noite? Para mim, o importante é qualidade de sono e não quantidade. Quantas vezes acordamos cansados depois de dormir 8 ou 9 horas?

Mais um ano foi e essa lógica de 365 dias está acabando para o recomeço. Logo chegarão os novos feriados e o comércio se aquecerá! Comemoramos o Natal comprando presentes e esperando o caminhão da Coca Cola passar (o natal vem vindo, vem vindo o natal).

Os 365 dias como um ano deveriam ser desprezados. Deveríamos viver como se existisse apenas mais um dia. Trabalharíamos felizes, namoraríamos felizes. Neste ano esqueci de parabenizar meu amigo pelo aniversário de 365 completos, mas no próximo 365 dias eu o cumprimentarei.

Encerrando com chave de ouro

December 13, 2007

Antes de começar, gostaria de deixar cristalino que este post - assim como o anterior - é uma mera opinião acerca apenas das apresentações dos TCCs. Não fui atrás do conteúdo escrito, mas prometo que lerei-os ano que vem e aí sim eu volto a postar minhas churumelas aqui dizendo o que achei dos trabalhos em si, e não só das apresentações como agora.

Voltando… não consegui achar um título menos clichê, porquê de fato os três trabalhos apresentados no dia 13 de dezembro foram ótimos (salvo alguns erros abissais de digitação nos slides que poderiam ser detectados com uma simples revisão, mas isso é o de menos).

O trabalho inicial era sobre jornalismo ambiental. Foi produzido um documentário de oito minutos e um tablóide contendo oito páginas. O documentário foi magnífico; se não me falha a memória, era sobre algum lugar que é um dos últimos redutos ambientais de conservação do cerrado no estado de São Paulo. Na minha leiga opinião, eu achei ótima a sacada de abordar um tema e um lugar praticamente inexistente na mídia. E a linguagem usada pela apresentadora no documentário foi bem oportuna. O impresso só foi apresentado por cima em um pdf, mas pelos assuntos abordados e a diagramação, parecia ser um bom material. Botei fé na moça lá, acho que o nome dela era Aline Barbosa (se eu errei me corrijam), creio que essa tem futuro na área. Qualquer pessoa da área jornalística (ou fora dela) percebe quando vê um bom jornalista (tanto é que ela ganhou um dos prêmios simbólicos dados aos melhores trabalhos do ano).

(tentarei ser breve) O segundo trabalho foi outra ótima sacada. É um portal de internet - dimensional é que não seria - destinado a saúde ribeirão-pretana com o intuito de clarificar e informar nós leigos sobre medicina e seus assuntos que o cercam. No fim, o professor Denis disse que conseguiu uma hospedagem para o site das meninas (esse trabalho foi apresentado por duas meninas), ao melhor estilo do programa do Luciano Huck (mal ae Denis, não resisti fazer essa piadinha hehehe), com as bonificadas chorando e tudo mais.

(The Flash comerá poeira neste parágrafo) O terceiro foi aquele que o professor Denis tanto nos falou em aula, sobre o tráfico, então dispensa meus comentários. Foi um bom trabalho também, ele passará na TV Clube após o Ano Novo (fica a cargo do leitor interpretar essa informação) e vocês poderão tirar as próprias conclusões sobre o documentário de oito minutos.

No fim de tudo, os professores elegeram os melhores TCCs premiando-os com aqueles troféus acrílicos em forma de L. Dentre os melhores estava um que foi apresentado na terça-feira (o que salvou o dia, em uma análise do site Repórter Social), o de jornalismo ambiental supracitado e mais uns outros aleatórios que me esqueci agora.

Pra quem se frustrou terça-feira com apenas uma apresentação boa dentre quatro, saí bem satisfeito com os três ótimos trabalhos apresentados no dia 13 de dezembro.

PS.: Não é porquê eu falei que o prêmio parece uma letra “L” em itálico que eu estou o desdenhando, pelo contrário, achei muito interessante a iniciativa. Eu já me daria por satisfeito apenas com o anúncio dos melhores trabalhos, já é um prêmio por si só ser eleito. Com uma lembrança material, melhor ainda.