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Pra não dizer que não nos avisaram

July 12, 2008

Transcrito integralmente da Folha de São Paulo de 8 de maio de 2002 (dois mil e DOIS)

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0805200209.htm

(só para assinantes UOL)

TENDÊNCIAS/DEBATETENDÊNCIAS/DEBATES

SUBSTITUIÇÃO NO STF

Degradação do Judiciário

DALMO DE ABREU DALLARI

Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.

Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.

Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.

Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.
Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente -pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga-, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.

É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.

A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha inadequada

É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo especializou-se em “inventar” soluções jurídicas no interesse do governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique, o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União, aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa de anular a demarcação de áreas indígenas. Alegando inconstitucionalidade, duas vezes negada pelo STF, “inventaram” uma tese jurídica, que serviu de base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em que se baseavam as demarcações. Mais recentemente, o advogado-geral da União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem decisões judiciais.
Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais, contra atos de autoridades federais.

Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um “manicômio judiciário”.

Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no “Informe”, veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado “Manicômio Judiciário” e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que “não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo”.

E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na “indústria de liminares”.

A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou a revista “Época” (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na “reputação ilibada”, exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.

A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou “ação entre amigos”. É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática.

Dalmo de Abreu Dallari, 70, advogado, é professor da Faculdade de Direito da USP. Foi secretário de Negócios do município de São Paulo (administração Luiza Erundina).

Mainardi e VEJA, os maiores defensores do PT

July 9, 2008

Sim, isso mesmo. Acabei de constatar no próprio artigo do ilustríssimo cineasta Diogo Mainardi que não há melhor defensor do Partido dos Trabalhadores do que ele. Arrisco-me a dizer que se algum dia alguém tentar algo contra a VEJA, Lula e seus amigos serão os primeiros a intervir.

Não pensem que estou usando de ironias. O caso atual de Daniel Dantas e sua turminha, mostra como ninguém mais acredita na VEJA quando ela diz que o PT estava envolvido até suas mais profundas entranhas com o banqueiro.

O assunto “PT: a raiz de todo mal” é o clássico conto popular onde Pedrinho é um garoto sapeca que só contava mentiras e no dia que ele mais precisou de ajuda e contou a verdade, ninguém acreditou nele. É a mesma situação da infame revista: ela criou uma crença popular de que falar mal do PT é fazer charme, ser direitista cego, etc.

Acredito que dessa vez, no mínimo tinha algum cabeça ali do PT (e obviamente de outros partidos) envolvido com a turminha da pesada (Dantas, Nahas, Valério, etc.) como ficou subentendido nos escândalos do mensalão. Quando viram que a estrutura estatal e “democrática” estava com seus alicerces podres, resolveram fazer um acordão inédito onde só PSOL e PSTU dos mais conhecidos ficaram de fora. No tal acordão ficou definido que impeachment ou caça aos “bruxos” estava proibido, que quem quisesse brincar de prender bandidos que procurasse outro bueiro para fuçar, menos aquele.

Mas obviamente esse recorte da realidade feito por mim é só mais uma alucinação provocada pelo meu demônio direitista das épocas de adolescência. Mesmo porque, depois de todo o trabalho que a VEJA teve em criar esse escudo moral pro PT, quem iria acreditar em uma voz dissonante que mais parece um devaneio?

Le Monde de greve

April 20, 2008

O exemplo do Le Monde

Francisco Viana
De São Paulo (SP)
O Le Monde, de Paris, está em greve. Protesta contra a demissão de funcionários. Desde de 1976 não acontecia nada semelhante. Não vou falar da greve do Le Monde, mas do seu significado simbólico. No dia seguinte à queda do Muro de Berlim, as companhias fizeram soar o toque de avançar do neoliberalismo. Isto significou a transformação da política em algo abstrato. O individuo pode se manifestar, o coletivo não.

Com isso, toda a energia do trabalhador foi canalizada para a lucratividade máxima. A produtividade máxima. Voltou-se à época da primeira revolução industrial, só que acondicionada na pós-modernidade computadorizada. Os mecanismos de controle passaram a ser invisíveis: a competição por carreiras, os orçamentos centralizados nas matrizes, as metas muitas vezes inalcançáveis, as pressões de toda ordem contra qualquer ambição associativa. Aboliram-se os limites da vida privada e o ambiente de trabalho estendeu-se por toda parte. É fonte de angústia e prazer, mais angústia do que prazer. Substitui a família, o lazer, o amor, o “eu”.

Rompidos os laços de solidariedade, o capital tornou-se a força absolutamente dominante, ao ponto de conseguir tirar de cena palavras como capitalismo e burguesia. Não é verdade? Hoje, fala-se não mais em capitalismo, mas em mercado. Fala-se em gestores, investidores, executivos. A burguesia tornou-se quase uma relíquia histórica. Em síntese, modelou-se novos padrões culturais, novos continentes de poder, uma concepção de produção que abstrai o labor abstrato de toda a cadeia produtiva para colocar em seu lugar a miragem de uma suposta força do indíviduo.

Caiu o Muro, o mundo tornou-se uma Roma sem Cartago. Quer dizer, sem visão crítica. Sem alternativa à realidade imposta pelo universo das corporações. O exemplo que vem do Le Monde mostra que é possível haver um renascimento, um relacionamento dialético entre os imperativos da globalização e os imperativos da construção de relações humanísticas no ambiente das companhias. A greve é contra a demissão de 130 funcionários. Uma greve de solidariedade, melhor dizendo.

No Brasil precisamos retomar esse caminho. Dizer não a uma lógica que ninguém quer - a lógica da desumanização em prol do capital -, mas que expressa a vontade de todos, na medida em que existe porque todos se mantêm em silêncio. Essa visão crítica bem que poderia ter a bandeira dos partidos que se alinham em defesa do progresso e da democracia. Há alguns dias os jornais publicaram noticias informando que o brasileiro trabalha sete meses por ano para pagar dívidas. Se somados aos outros quatro meses que trabalha para pagar impostos, são 11 meses perdidos.

Portanto, onze meses sem gerar riqueza com o valor do trabalho. Por que os partidos políticos, em lugar de mensagens vazias como as que caracterizam os programas eleitorais, não usam seus espaços para educar o cidadão? Por que não colocam em prática o discurso crítico desvendando a porção invisível do crédito fácil e abundante, do consumismo irracional, de um narcisismo que nada constrói?

É esse um dos grandes desafios da campanha política que se aproxima. Os comunicadores precisam estar mais atentos para a realidade profunda da sociedade. Deixar a mesmice do marketing e trabalhar para apresentar propostas concretas a esse mal estar oceânico que inibe avanços socais e nos vende a ilusão de que estamos bem, só porque a economia emite tíbios sinais de vitalidade. Se preponderar a visão critica, veremos que o Estado precisa ser revigorado e a política voltar a ocupar posição central na vida da sociedade. É o que os funcionários do Le Monde expressam ao dizer não. Não à demissão dos colegas. Não à Roma sem Cartago.

Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: hermescomunicacao@mac.com)

Cyberutopias e jornalismo

March 27, 2008

Artigo interessante de Eugênio Bucci para o Jornal O Estado de São Paulo de 27 de março de 2008:

O relatório The State of the News Media de 2008 (www.stateofthenewsmedia.org), divulgado este mês, traz uma radiografia, quer dizer, uma tomografia computadorizada do estado da imprensa nos Estados Unidos. Conduzido pelo Project for Excellence in Journalism, é vasto, quase exaustivo. Se publicado em livro, teria mais de 700 páginas. Ao mesmo tempo, é detalhista e analítico. O diretor do Project for Excellence in Journalism, Tom Rosenstiel, é a pessoa certa no lugar certo, como demonstra um dos livros que escreveu em parceria com Bill Kovach, The Elements of Journalism (New York: Three Rivers Press, lançado em 2001 e atualizado em 2007). A partir de centenas de conversas com profissionais e estudiosos da imprensa, essa obra procura identificar e definir os elementos essenciais do jornalismo em tempos de transformação. O relatório The State of the News Media, publicado anualmente desde 2004, parece perseguir a mesma pergunta e o mesmo método.

Em 2008, o estudo noticiou com destaque o incremento da liderança das redações convencionais no ambiente da internet:
“Em que pese a existência de novas fontes, as pessoas consomem mais as notícias que as redações da velha mídia produzem.”

O cenário é interessante. Os dez sites noticiosos de maior audiência, em sua maioria extensões de marcas já consagradas na televisão ou na chamada “imprensa escrita” – como CNN, com 29,1 milhões de visitantes únicos por mês em2007, ou The New York Times, com 14,7 milhões –, exercem praticamente uma “oligarquia”, nos termos do relatório, dentro da rede. No jornalismo online, a concentração de audiência é
ainda maior do que a verificada na mídia convencional. Os dez maiores sites respondem por 29% do total, enquanto os dez maiores jornais impressos representam apenas 19% do mercado.

Essa concentração segue em crescimento, contrariando as previsões de que o aumento exponencial do número de portais, blogs e sites estilhaçaria o domínio de marcas tradicionais. Chama a atenção o avanço do New York Times, cuja audiência (em visitantes únicos por mês) deu um salto da ordem de 20% entre 2006 e 2007.

Diante desses dados, o que dizer das profecias que garantiam que a indústria e o mercado perderiam centralidade? Estavam todas furadas? Bem, ao menos em parte, estavam furadas, sim. É verdade que os cenários continuam indefinidos. A transição em que nos encontramos tende a perdurar e não se deve esperar que as coisas se imobilizem. De agora em diante, ao contrário, é bem possível que a idéia de transição vireum componente da idéia de estabilidade, ou seja, o sujeito – bem como as instituições – será cada vez mais desafiado a se localizar, a encontrar um equilíbrio mais ou menos estável, num mundo em movimento permanentemente, arranjado segundo configurações mutáveis e mutantes. Surpresas virão por aí. Ainda assim, é possível concluir com alguma segurança que os grandes títulos, a despeito dos vaticínios, não morrerão tão cedo.

Os dados recentes mostram que não há incompatibilidade entre os jornais tradicionais e as “novas mídias”. Há contradições, muitas vezes, mas não incompatibilidades. Apesar de esse debate ter enveredado por discursos utópicos e melodramáticos, em que os blogs ficam com o papel de mocinhos e tudo o que seja cconvencional representa o vilão, os fatos indicam uma complementaridade entre uns e outros. Um dos mais inteligentes estudiosos das redes interconectadas, Yochai Benkler, autor de TheWealth of Networks –  How Social Production Transforms Markets and Freedom (Yale University Press, 2006), descreve de modo desapaixonado o processo pelo qual as novas tecnologias habilitam indivíduos e pequenos grupos a se
converterem em, como dizem, “provedores de conteúdo”, baseados em relações de trabalho voluntárias e solidárias, não mediadas pelo mercado. Nascem daí fenômenos como a Wikipedia, um sucesso na web que contou com colaboração voluntária de, segundo Benkler, 50 mil co-autores. Ocorre que essas redes, se não se subordinam ao mercado, tampouco revogam o mercado: elas o modificam – para melhor. Elas o civilizam.

O mesmo se pode dizer com relação ao jornalismo. Por mais voluntariosas que sejam, as redes de voluntários não o revogam, mas podem ajudar a melhorá-lo. A demanda por notícias e análises confiáveis e independentes, em ambientes de debate que abriguem grandes contingentes de cidadãos, permanece acesa e viva. A necessidade de fóruns amplos e comuns é estrutural. O espaço público não pode prescindir de referenciais de alta visibilidade e fluxos intensos, que façam as vezes de nós de entroncamento do trânsito das idéias. É aí que entram as velhas redações jornalísticas, não porque são velhas, mas porque são jornalísticas. Num mundo em que o cidadão, finalmente, aprendeu a desconfiar da arrogância do (mau) jjornalismo, as redações são chamadas a vincular credibilidade e inovação. Mais ainda, precisam demonstrar capacidade de liderar num ambiente em que a participação do público – muitas vezes como autor, mais que como consumidor das notícias – é a regra. Não por acaso, segundo apontou o The State of the News Media, um dos destaques do ano de 2007 é justamente o ambiente de alta inovação das redações
americanas.

Inovar quer dizer inovar tecnologicamente e eticamente. E inovar eticamente quer dizer reencontrar, em novas bases, princípios aparentemente antigos, como independência e respeito ao cidadão – respeito que inclui diálogo horizontal. Para isso apenas a imprensa livre – pública ou comercial, não importa, mas livre de verdade – é capaz de dar respostas adequadas. As redações, velhas ou novas, inovam quando reinventam a função pública do jornalismo. Parece uma trama complicada, mas alguns já conseguiram. ●

Oligarcas, tremei

March 15, 2008

Este final de semana estava sem nada de interessante pra ler e abri minha gaveta pra saber se de lá brotaria algo que salvaria este sábado monótono e chuvoso.

Eis que surge uma fotocópia encadernada do “Manifesto do Partido Comunista” que eu havia adquirido na época do colegial. As folhas estão até amareladas, e eu dei uns espirros devido à extrema poeira que saiu da obra (informação super relevante essa).

Vou colar alguns trechos aqui pro pessoal ler, e acima de tudo, REFLETIR, REFLETIR e REFLETIR.

Manifesto do Partido Comunista

por Karl Marx e Friedrich Engels

[...]

Até hoje, a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das suas classes em luta.

Nas primeiras épocas históricas, verificamos, quase por toda parte, uma completa divisão da sociedade em classes distintas, uma escala graduada de condições sociais. Na Roma antiga encontramos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média, senhores, vassalos, mestres, companheiros, servos; e, em cada uma destas classes, gradações especiais.

A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Não fez senão substituir novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta às que existiram no passado.

Entretanto, a nossa época; a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classes. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado.
[...]
A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então reputadas veneráveis e encaradas com piedoso respeito. Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio fez seus servidores assalariados.

A burguesia rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias.
[...]
A burguesia suprime cada vez mais a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Aglomerou as populações, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A conseqüência necessária dessas transformações foi a centralização política. Províncias independentes, apenas ligadas por débeis laços federativos, possuindo interesses, leis, governos e tarifas aduaneiras diferentes, foram reunidas em uma só nação, com um só governo… uma só lei, um só interesse nacional de classe, uma só barreira alfandegária.
[...]
As armas que a burguesia utilizou para abater o feudalismo, voltam-se hoje contra a própria burguesia.

A burguesia, porém, não forjou somente as armas que lhe darão morte; produziu também os homens que manejarão essas armas - os operários modernos, os proletários.
[...]
Depois de sofrer a exploração do fabricante e de receber seu salário em dinheiro, o operário torna-se presa de outros membros da burguesia, do proprietário, do varejista, do usurário, etc.
[...]
Finalmente, nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva, o processo de dissolução da classe dominante, de toda a velha sociedade, adquire um caráter tão violento e agudo, que uma pequena fração da classe dominante se desliga desta, ligando-se à classe revolucionária, a classe que traz em si o futuro. Do mesmo modo que outrora uma parte da nobreza passou-se para a burguesia, em nossos dias, uma parte da burguesia passa-se para o proletariado, especialmente a parte dos ideólogos burgueses que chegaram à compreensão teórica do movimento histórico em seu conjunto.
[...]
Todas as classes que no passado conquistaram o Poder, trataram de consolidar a situação adquirida submetendo a sociedade às suas condições de apropriação. Os proletários não podem apoderar-se das forças produtivas sociais senão abolindo o modo de apropriação que era próprio a estas e, por conseguinte, todo modo de apropriação em vigor até hoje.
[...]

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PS.: Fica aí minha dica de leitura pra galera. Visto que é uma obra de domínio público, e não precisa desembolsar grana para adquirí-la e só tem 24 páginas. (mentira, tem um pouco mais, mas compensa de qualquer forma). A idéia do título foi do Raul.

Um break na involução

January 9, 2008

Após ler a notícia “Com 37 pontos, ‘BBB 8′ confirma segunda menor audiência da história“, achei interessante a atitude de uma pequena parcela das pessoas ao ignorarem aquele antro da ridicularidade e fazerem algo de útil em suas vidas ao invés de ficarem assistindo uma dúzia de clichês ambulantes interagindo medíocremente.

Será que o pessoal tá acordando ou isso é só mais um protesto silencioso para que melhorem a atração? (espero que seja a primeira opção)

Ainda não consegui entender o que leva alguém a assistir mais do que uma edição de Big Brother. Na primeira até vai: toda aquela novidade que parecia ser o presságio dos tempos ‘modernos’ retratados por George Orwell; nós assistindo 12 humanos dentro de uma jaula sem perder nenhum movimento, uma ação. Gozando ao máximo da ridicularidade humana.

O simples fato de assistir BBB uma segunda vez já mostra o quão involuída nossas mentes são. Parece que perceberam isso no BBB 2 (pior audiência da história), mas devido a insistência doentia da mídia, as pessoas acabaram por esquecer disso e se renderam ao ridículo. Espero que desta vez não seja mais um lampejo limitado de consciência, que seja no mínimo, um break definitivo na involução.

Mudanças

January 5, 2008

Que freudiano ser livre para sexualizar a psique humana, todos o fazemos, querendo ou não o sexo é parte até da infância se aceitarmos Édipo como um complexo generalizado e real. O sexualismo brasileiro é cartão postal na Europa e na América do Norte… que orgulho!!!!

Mas não estou aqui para ficar falando sem parar sobre sexo, temos sexo o suficiente em nossas vidas. Vim para falar sobre o Nada, pois é Nada é o que resta quando temos que enfrentar mudanças, por que comecei com o sexo? Bom, porque recentemente recebi uma declaração de amor de um ex que agora é homossexual, começando por aí uma grande mudança em minha vida, tendo sido ele o meu primeiro amor e primeiro ódio. Agora enfrento outras mudanças, estou no mundo do Nada, apenas sonhos… então vou mudar por aqui, ou melhor, a partir daqui, não serão sonhos, não mais, serão objetivos, estou aqui para noticiar uma  nova mudança, mais uma dentre muitas. Não voltarei mais! Os que ainda são meus amigos, continuarão a ser, os que quiserem manter contato, por favor que nada os impeça, a Ingrid tem meu e-mail, o Leonildo tem meu MSN e Orkut, o Milton também. A razão desta mudança é que realmente sinto que algo está faltando em minha vida, era o Nada que me perseguia, e me seguiu até Lins.

Mas, no dia do meu aniversário tive uma conversa interessante com meu pai e sua nova namorada, que logo será minha nova madrasta, não foi bem um diálogo, mas sim uma notificação dos dois para mim, assim que os dois legalizarem o relacionamento e comprarem uma casa, serei levada para Americana para morar com os dois “pombinhos”. E foi pensando e quantas mudanças têm ocorrido em minha vida que decidi então, abandonar meu sonho de ser jornalista, para perseguir , meus agora objetivos, de ser escritora e musicista, viver das minhas duas paixões.

Então… Sucesso para vocês, meus colegas, meus amigos… e como gosto de dizer … um  dia nos encontraremos na estrada do Rock N´Roll. E quanto ao meu pai e sua nova namorada,tudo o que posso dizer é que voltamos ao assunto do sexo… o que o sexo não faz com uma pessoa, ou a falta dele.

O Holístico Sistema de Sistemas

January 2, 2008

Desta vez a “pauta” é mais um trecho do filme Network ao qual citei no meu post anterior. Esse filme é daqueles “oscarizados” que até o professor Denis teria de dar o braço a torcer e admitir que é um filme bom hehehe. Acho uma obra-prima necessária a qualquer jornalista esse filme.

Só pra contextualizar, nessa parte, o “Profeta Louco das Ondas Televisivas” fez uma mobilização massiva para cancelar um negócio bilionário que venderia a rede de TV a qual ele trabalhava. Após conseguir a tal mobilização popular, Howard Beale foi à sala do “grão-mestre” da corporação fictícia do filme pra ouvir um sermão. O que torna o sermão interessante é como as coisas estão cada vez mais da forma que o chefão norueguês descreve (inclusive quando ele fala sobre guerras e fome, que são assuntos cada vez mais censurados pra distorcer nossa realidade)

Segue aí o trecho (com a transcrição do sermão abaixo do vídeo):

“Você mexeu com as forças primitivas da natureza Sr. Beale e eu não as possuo!

Está claro?

Você acha que meramente parou uma negociação?

Não! Não foi só isso.

Os árabes vêm tirando bilhões de dólares deste país agora eles devem devolvê-los!

É a lei da gravidade, aquilo que sobe tem que descer. É o balanço ecológico!

Você é um homem velho que pensa em termos de nações e pessoas.

Não existem nações.

Não existem pessoas.

Não existem russos.

Não existem árabes.

Não existe terceiro mundo.

Não existe ocidente.

Só há um holístico sistema de sistemas!

Um vasto e imanente, interligado, interagente multi-variante, multinacional domínio de dólares!

Petro-dólares, eletro-dólares, multi-dólares. Marcos alemães, ienes, rublos, libras e sheqels!

É o sistema internacional de moedas corrente que determina a totalidade de vida neste planeta.

Esta é a ordem natural das coisas hoje em dia.

Esta é a estrutura atômica, sub-atômica e galáctica das coisas hoje em dia.

E você mexeu com as forças primitivas da natureza!

E você vai se retratar!

- Estou me fazendo compreender? -

Você se levantou em sua televisãozinha de 21 polegadas e praguejou sobre a América e sobre democracia.

Não há América.

Não há democracia.

Só há IBM e ITT e AT&T…

e Du Pont, Dow, Union Carbide e Exxon.

Essas são as nações do mundo de hoje.

Sobre o que você acha que os russos falam em seus conselhos de estado?

Karl Marx?

Eles discutem suas programações lineares, tomam decisões em cima de teorias estáticas, soluções minimalistas e computam as probabilidades do custo-benefício de suas transações e investimentos, como nós.

Nós não estamos mais vivendo num mundo de nações e ideologias, Sr.Beale.

O mundo é um colegiado de corporações inexoravelmente determinado pelas leis imutáveis dos negócios.

O mundo é um negócio. Tem sido desde que o homem saiu da caverna.

E nossas crianças viverão, Sr.Beale para ver esse mundo perfeito…

em que não haverá guerra ou fome…

opressão ou brutalidade.

Apenas uma vasta e ecumênica “companhia-mãe” pela qual todos homens irão trabalhar para servir a um lucro comum e na qual cada homem terá sua quota-parte que proverá todas as necessidades, tranqüilizará todas as ansiedades e matará toda a monotonia.”

PS.: “Holístico” refere-se a “holismo”, que por sua vez significa “Um conceito teórico segundo o qual todos os seres interagem formando um todo, sem que se possa entendê-los isoladamente. “

Em Nome da Copa

October 27, 2007

Leiam a notícia:

http://esportes.terra.com.br/interna/0,,OI2027605-EI2045,00.html

Em nome da Copa de 2014 querem jogar TODA a sujeira do futebol pra debaixo do tapete igual fizeram em 2002 quando o Brasil INFELIZMENTE foi Campeão da Copa do Mundo. Aquele título foi a coisa mais nociva que poderia acontecer para o futebol brasileiro. Todos os esquemas sujos de corrupção da CBF foram “milagrosamente” esquecidos.
Agora sem nenhuma Copa por perto, o Ricardão sai do armário e vai à caça de uma equipe de faxina. Voluntários não faltarão para o serviço. Eles estarão sempre dispostos a “fazer o serviço” (claro que uma recompensa bem gorda vem bem a calhar).

Brasil, o país que já deixou de ser piada há muito tempo agora se transformou no país do CANSEI. Piada é algo muito sério por aqui. Uma piada mal contada vira processo. A coisa é tão séria que já não damos mais a mínima pra corrupção, mas não hesitaremos em declarar guerra a quem nos fizer uma piada de mau gosto.

E outra, eu não dou a mínima aos que roubam meu dinheiro, contanto que me deixem saber quem matou a protagonista da novela das oito e depois não me encham o saco enquanto eu estiver vendo Casseta & Planeta, eu e todo o país estaremos de bem com a vida e sempre prontos para uma boa noite de sonhos. De preferência um sonho bem material, porquê estou cansado de psicodelia enquanto estou acordado.

[atualização]

http://esportes.terra.com.br/futebol/brasil2014/interna/0,,OI2030384-EI10545,00.html

Deputado rebate Teixeira e diz que não recua um centímetro sobre CPI

(…) “A CPI está preparada e vai acontecer do jeito que foi proposta. Eu não vou recuar nem um centímetro na minha proposta”, disse o deputado Silvio Torres (PSDB-SP), em entrevista ao Terra.” (…)

“Eu não entendo o porquê do desespero do presidente Ricardo Teixeira. A CPI é para investigar o futebol e não investigar a ele. A CPI não é contra Ricardo Teixeira. Ele tem medo de apurar lavagem de dinheiro no futebol? A investigação é necessária, como já mostrou o caso do Corinthians. E há indícios de que aconteça o mesmo problema em vários outros clubes de futebol do País”, comentou. (…)

É Marcelo, dessa vez seu time não escapa hehehe.

Contestação é sinônimo de ignorância

October 21, 2007

Quem puder, leia a Revista ÉPOCA n.º 492 de 22 de outubro de 2007 p.60-68 (matéria de capa). Se trata de uma matéria analisando 28 livros didáticos do ensino fundamental e comentando suas supostas “distorções” da realidade (para a revista, contestar e distorcer são sinônimos).

Chega a dar ânsia de vômito ler a matéria que é de um pro-establishment de dar inveja até na Revista VEJA (não estou exagerando, sério, leiam). A revista ÉPOCA condena veementemente um livro ao qual diz que o “capitalismo e a globalização estão a serviço das elites”. Para o veículo, faltou o livro ressaltar que “a globalização beneficiou países periféricos como Brasil, Índia e China, que atraíram grandes investimentos de empresas que geram empregos” (como se fosse o mar de rosas que essa frase deixa transparecer!).

Em outro trecho onde se trata dos Estados Unidos, os livros fazem a óbvia referência à influência negativa dos EUA. Segundo a reportagem, deveriam apenas dizer que “Os Estados Unidos têm uma das mais antigas e sólidas democracias do mundo. (…)Se não tivesse produzido mais ganhos do que perdas, o capitalismo estaria em extinção” (!!!)

Sem mencionar a capa, que tem uma foto, sugerindo que os livros didáticos (os que contêm algum trecho de contestação) transformam as crianças em seres BURROS dignos do limbo da sala e de um chapéu em forma de cone branco.

Não vou ficar analisando a reportagem toda aqui por falta de estômago para tal, só quis mesmo destacar alguns trechos dentre vários que mostra a que vieram esses veículos. (Eu li a reportagem toda, mas transcrever toda minha análise mental são outros quinhentos)

A reportagem deixa subentendido que se seu filho aprende de alguma maneira a criticar e contestar as bases da sociedade, ele estará fadado ao abismo da ignorância e pobreza. E que acima de tudo, se ele quiser vencer na vida, ele tem de ser um bom neoliberal obediente (de fato isso é verdade mesmo, mas isso é discussão pra outra hora…).